Para além da Academia

October 11, 2007

5. Mas, deixando um pouco…

Filed under: doxa - cristianomuniz @ 3:32 pm

… de lado a questão do ordenamento, hoje, na aula de Redação Jornalística III (com a profª. Clarice), perguntei à professora se a capacidade crítica era um elemento valorizado numa redação; a professora respondeu que, às vezes, dá-se mais valor a um sujeito que faça rapidamente as tarefas que lhe ordenam do que a um cara que pense a respeito daquilo que faz, que questione de algum modo as coisas que estão acontecendo em seu cotidiano; enfim, dito de outro modo, mais vale – numa grande empresa como a RBS, por exemplo – ser certinho, fazer tudo direitinho, etc. etc., do que se posicionar a respeito dos fatos e ter atitude crítica em relação a eles.

E isso, naturalmente, faz parte de um discurso, ou melhor, de uma maneira de pensar que segue, a meu ver, certos padrões pré-estabelecidos de conduta. Minha mãe me fala, desde os tempos de primário, que eu não devo me atrasar para os compromissos, que se eu me atrasar pro trabalho serei demitido, que eu tenho que ir bem na escola, que tirar notas boas é minha obrigação como estudante, que fumar faz mal pra saúde, que eu morrer mais cedo em função disso etc. etc. etc.; ou seja, parece-me que existe um discurso sobre o modo pelo qual uma pessoa dá certo e se torna vencedora na vida.

October 10, 2007

Explicando as categorias

Filed under: prolegômenos & esclarecimentos - cristianomuniz @ 4:51 pm

Resolvi dividir as postagens de ‘Para além da Academia’ em quatro categorias. Em doxa, estão agrupados textos mais opinativos, de caráter bastante pessoal e sem grandes pretensões reflexivas; em síntese, essa categoria abrange comentários sobre minha vida e opiniões particulares sobre questões relativas ao cotidiano da academia (e de um pouco além dela, naturalmente).

A categoria episteme, por sua vez, traz textos mais acadêmicos, baseados principalmente em trabalhos relacionados à minha atividade no Núcleo de Pesquisa em Cultura e Recepção Midiática e em textos concebidos para disciplinas da faculdade. Em breve, pretendo inagurar esta ’seção’ com um resumo da minha apresentação para o Salão de Iniciação Científica da UFRGS, que ocorrerá no próximo dia 22, pela manhã.

Em red. III, a idéia é juntar os textos produzidos especificamente para a cadeira de Redação Jornalística III, do curso de Jornalismo na Fabico, ministrada pela profª. Clarice Esperança. Pretendo utilizar esse espaço para publicar a produção textual solicitada pela professora e, dependendo de como for, poderei também utilizar o ‘Para além…’ como trabalho final da referida disciplina.

Finalmente, como o próprio nome sugere, em prolegômenos & esclarecimentos estão reunidos textos como este, no qual explico a lógica (ou, melhor dizendo, a falta de lógica) que rege as publicações neste blógue. Dito de outra forma: nessa categoria, encontram-se aqueles textos que servem de introdução ou de explicação a algum tema que porventura venha a ser abordado por mim, de modo a facilitar a compreensão dos leitores, dando coerência aos diversos tipos de postagens que serão publicadas no sítio.

 

4. Por outro lado, me parece…

Filed under: doxa - cristianomuniz @ 3:29 pm

… também que os professores subestimam muito seus alunos; normalmente somos tratados como ignorantes, como pessoas sem o mínimo de capacidade crítica e interesse pelos estudos; quer dizer, existe um tipo de aluno que é valorizado, que é aquele que segue fielmente as orientações do mestre, que chega sempre pontualmente e entrega todos os trabalhinhos nas datas corretas, mas sem qualquer tipo de esforço reflexivo: seu interesse, parece-me, é apenas “ir bem na faculdade” ou “não ficar com o ordenamento ruim”. Nada contra quem pensa que o ordenamento é importante, ou quem gosta de ir bem para ter um bom ordenamento e conseguir boas cadeiras eletivas. Um esclarecimento para quem não é da Fabico: ordenamento é uma espécie de índice usado para definir as ordens de matrícula na UFRGS; é bem simples: quem tem as melhores notas, tem prioridade para fazer escolher as cadeiras que quer fazer. Assim, muita gente se preocupa com o ordenamento para poder ter a chance de poder montar o horário e pegar boas cadeiras eletivas (as quais, normalmente, têm vagas limitadas). Cadeiras eletivas são aquelas que tu “escolhe” fazer; na real, tu é obrigado a fazer um número xis de eletivas, em todos os cursos da UFRGS; a diferença é que tu teoricamente “escolhe” o que cadeiras fazer, só que, como a oferta de eletivas é um pouco restrita, tu acaba não tendo muita escolha: por isso, tu acaba tendo aula com mestrandas da Psicologia, por exemplo. Professores titulares, de saco cheio de dar aula para a gentalha da graduação, mandam seus bolsistas de mestrado dar aula nas disciplinas que eles, professores, são obrigados – por contrato – a ministrar. Ou seja: uma tremenda sacanagem.

October 9, 2007

3. Para quem não sabe…

Filed under: doxa - cristianomuniz @ 3:53 pm

… Fabico é a Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, onde eu estudo Jornalismo há quase oito semestres. Pretendo me formar no final do ano que vem, se eu conseguir suportar o enorme fardo de cadeiras maçantes que ainda falta para eu “integralizar o currículo”, como diriam os nobres representantes da classe dos burocratas acadêmicos, os quais relacionam-se diretamente com o fenômeno discutido em outro post. Ou seja, para eu conseguir concluir o curso e finalmente alçar vôos um pouco mais ousados, eu preciso, antes, ter uma boa dose de aulas que não têm nada a acrescentar. A maioria dos colegas com quem converso tem essa mesma impressão, de que poucas aulas na Fabico são, de fato, interessantes.

E a Luiza, quando estava estudando Psicologia na PUCRS – ela infelizmente teve que trancar o curso por causa das gravações do seriado no qual ela atua –, constantemente reclamava das suas aulas, que quase todas eram chatas, que os professores de modo geral não tinham didática para ensinar… Enfim, uma série de queixumes relativos ao modo como seus professores lhe davam aula. Outras pessoas com quem conversei, de outros cursos, também destacaram isso; fica a impressão de que os professores não se interessam em compreender o que se passa pela cabeça de seus alunos, e por isso não se importam com o tipo de aula que dão.

October 8, 2007

Entre o morro, as tropas e a elite

Filed under: red. III - cristianomuniz @ 5:30 pm

 

A repercussão de Tropa de Elite e as discussões daí resultantes

No discurso oficial sobre o combate ao uso de drogas ilícitas, de uns anos para cá, passou a se responsabilizar também o consumidor desse tipo de substância, que supostamente ajudaria a financiar o crime organizado que coordena a venda de entorpecentes em nossas cidades. Recentemente, o tema voltou à pauta de discussões, como é possível constatar na repercussão do filme Tropa de Elite, de José Padilha, junto à sociedade e à imprensa; e, de modo mais específico, no embate protagonizado por Arnaldo Bloch e Vagner Moura em artigos publicados no site do jornal O Globo. A película, que estreou há pouco nos cinemas brasileiros, retrata a guerra travada pela polícia contra os traficantes em uma favela do Rio de Janeiro, sob o ponto de vista de um agente do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar carioca.

Bloch, em seu artigo, questiona as reações da platéia ao filme em questão, ressaltando que a identificação do público com o capitão Nascimento – protagonista da produção, interpretado por Moura – é um reflexo do espírito reacionário (ou “fascista”, nas palavras do articulista) de boa parte de nossa classe média-alta urbana. Na sessão de estréia de Tropa de Elite, espectadores aplaudiram o capitão que adota métodos pouco humanos para combater os narcotraficantes e entoaram em coro a alcunha do BOPE (“caveira”), como se saudassem o batalhão e suas ações de repressão ao crime organizado. Bloch salienta a identificação da platéia com o personagem do capitão Nascimento que, nas palavras do autor, foi aclamado como uma espécie de “libertador de todos os medos e de todas as culpas”, situando-se, então, acima do bem e do mal, como o “vingador natural de todos os corações desprotegidos”.

Moura, por sua vez, responde em outro artigo às críticas apresentadas por Bloch; o ator baiano deixa claro em seu texto que não concorda com as atitudes de seu personagem no filme, demonstrando preocupação com o fato de a platéia ter atribuído um caráter quase “heróico” ao capitão Nascimento: para Moura, filmes como Tropa de Elite podem servir para estimular o debate sobre questões cruciais relacionadas ao tráfico e ao consumo de drogas em nossa sociedade; o que, na visão do ator, é totalmente contrário ao enfoque “fascista” sugerido por Bloch.

Nesse sentido, volta à pauta de discussões a questão da legalização do uso de entorpecentes. Moura lembra que tentar inibir o consumo de drogas é “contraproducente”, pois o consumidor seria o elo mais fraco do sistema que sustenta o tráfico de substâncias ilícitas; o ator também menciona o exemplo da Holanda que, por sugestão da polícia, resolveu tolerar o uso de maconha em determinados locais públicos. Contudo, o que o protagonista de Tropa de Elite não explica é como o caso holandês, sempre citado em qualquer discussão sobre o tema da legalização das drogas, poderia dar certo no Brasil; Moura desconsidera, portanto, as especificidades de cada país, as quais determinariam o êxito – ou fracasso, o que me parece mais provável – de semelhante iniciativa, caso fosse aplicada em nosso país.

Outra questão trazida ao debate é a da responsabilidade do usuário de drogas como financiador da indústria do narcotráfico. Moura comenta que conhece “muita gente que deixou de fumar maconha para não alimentar o tráfico”; eu, particularmente, conheço também muitas pessoas que têm por hábito “queimar um”, e nenhuma delas demonstra qualquer tipo de preocupação ou “consciência social” nesse sentido. E isso, certamente, não faz dessa gente um bando de alienados da “abobalhada burguesia” a qual Bloch se refere em seu artigo; neste ponto, Moura tem razão: o consumidor de drogas é mesmo o “elo mais fraco” da abominável corrente que une traficantes, policiais honestos e corruptos, autoridades da segurança pública, jovens e adolescentes do morro e do asfalto.

É certamente mais cômodo responsabilizar os usuários, ou ainda a tal “juventude burguesa alienada” de que fala Bloch, que povoa nossas universidades públicas e privadas, do que pensar o uso e abuso de entorpecentes como uma questão de saúde pública. Assim, o discurso reacionário de certos políticos e autoridades policiais – vide a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius e seu secretário de segurança, José Mallmann, e sua proposta infame de lei seca – encontra mais um bode expiatório convincente, encobrindo sua parcela de responsabilidade pela situação caótica da segurança pública em nossas metrópoles. Contraproducente é, a meu ver, procurar culpados para um problema que diz respeito a toda a sociedade e que influencia diretamente, queiramos ou não, nossos cotidianos e, porque não dizer, nossas vidas de modo decisivo.

 

Lembrando a todos que…

Filed under: prolegômenos & esclarecimentos - cristianomuniz @ 5:23 pm

… utilizarei este espaço também para publicar textos referentes à disciplina de Redação Jornalística III, ministrada pela profª. Clarice Esperança.

Postarei, na seqüência, um texto comentando a repercussão junto à imprensa do filme Tropa de Elite, do diretor João Padilha, conforme solicitado há algumas aulas pela professora.

Espero que gostem. 

October 5, 2007

2. Pela manhã, na aula…

Filed under: doxa - cristianomuniz @ 4:15 pm

… de Cibercultura do prof. Rüdiger (aula que eu não assistia há muitas semanas), comentando sobre a situação do ensino superior no Brasil, eu disse:

– Tem umas teses de doutorado que tu vê que foram feitas por professores que, quando fizeram concurso [para professor na UFRGS], eram mestres e aí resolveram fazer um doutorado só pra conseguir um aumento no salário. E daí fazem qualquer bobagem lá só pra ganhar o título [de doutor]…

O professor riu bastante e comentou logo em seguida:

– Agora que tu falaste eu estou enxergando na minha frente vários colegas…

Sim, esse tipo de coisa realmente acontece na Academia, com uma freqüência maior do que se imagina.

1. Hoje, pensando sobre a minha insatisfação…

Filed under: doxa - cristianomuniz @ 3:57 pm

… com o campo de estudos da Comunicação, tive um insight sobre as razões pelas quais eu e a Luiza resolvemos nos mudar e morar juntos. Para ela, acho que se trata muito mais de uma questão de liberdade, de se libertar do controle materno; para mim, no entanto, parece ser mais uma questão de conquistar alguma espécie de autonomia, ou de finalmente caminhar pelas próprias pernas; noutros termos, trata-se muito mais de assumir responsabilidades e arcar com as conseqüências disto do que libertar-se de algo. Acho que sempre tive um “pensamento livre”, ou algo que o valha; há tempos tenho essa impressão de que a minha forma de pensar não se encaixa nos moldes pré-estabelecidos pelo senso comum; muitas outras pessoas, assim como eu, também têm essa capacidade, aptidão, ou quem sabe talento, ou até mesmo sensibilidade, de enxergar além daquilo que a maioria vê; de ter, enfim, a pretensão de querer fazer algo de fato novo ou original: algo que se destaque em relação à mesmice que impera em diversos setores da atividade humana; entre eles, lógico, está a Academia – ou Universidade, como queiram – que, conforme diversos autores salientam, se vê entregue a uma tal burocratização, o que é, certamente, uma das razões para termos péssimos professores na Fabico.

October 4, 2007

Prólogo

Filed under: prolegômenos & esclarecimentos - cristianomuniz @ 2:51 pm

Resolvi enterrar o Pequenas Angústias porque acho que ele não tem mais tanto a ver comigo; agora que assumi uma série de novas responsabilidades – agora que eu estou casado, morando com minha mulher e nossos dois cachorros –; agora que eu resolvi ter minha própria casa e criar uma família, não faz mais sentido falar em pequenas alegrias e angústias.

Porque as angústias têm sido cada vez maiores; desde que me mudei, tenho vivenciado um sentimento muito forte de inadaptação, de não-pertencimento, como se eu não fizesse mesmo parte de coisa nenhuma; cada vez mais tenho dificuldade em aceitar determinadas situações que me são impostas ou – na maioria das vezes – que eu mesmo escolhi; tenho tido grande dificuldade em organizar meus horários e conseguir fazer todas as minhas tarefas, criando relações tensas com minha orientadora na pesquisa e com meus clientes dos freelas de editoração eletrônica. Toda uma série de preocupações novas se instalaram em minha mente depois que eu e a Luiza passamos a morar juntos; agora, temos uma casa para administrar e, antes disso acontecer, eu nunca havia sequer imaginado o quão complicado é gerir uma casa e cuidar de todas as tarefas domésticas.

Mas, ao mesmo tempo, as alegrias também são infinitamente maiores. Não tenho como descrever o quão bom é morar com a Luiza, mulher que eu amo, tanto que, hoje em dia, só consigo projetar minha vida no futuro vivendo com ela. Além do Axl – nosso scottish terrier – ter finalmente aprendido a gostar de mim, resolvemos (eu e a Luiza) adotar uma cachorrinha. A Isadora veio para nossa casa há duas semanas. É uma vira-lata filhote linda, muito ativa e brincalhona. Uma das coisas mais incríveis de se ter um filhote é saber que a vida dele depende, em boa parte, de ti, dos cuidados que tu pode dedicar a ele. Outra coisa muito boa é que agora o Axl tem companhia quando eu e a Luiza não estamos em casa; antes, ouvíamos diversas reclamações dos vizinhos de que ele fica uivando e chorando muito quando fica sozinho; agora, presumo, eles devem ficar brincando e – na maior parte do tempo – dormindo enquanto não voltamos para casa; pelo menos não houve mais nenhuma reclamação nesse sentido.

Resolvi criar um novo blógue por isso, porque eu precisava escrever a respeito da minha vida, como numa espécie de auto-análise, mas eu sentia que o Pequenas alegrias e angústias, meu antigo blógue, já não tinha mais a ver comigo, com o que eu sou agora, com o modo como eu entendo as coisas hoje em dia. Ele foi criado em 2004, quando eu tinha apenas dezessete anos; hoje, aos vinte e um, me sinto bem mais maduro que antes; contudo, algumas inquietações ainda permanecem e, atualmente, elas se concentram no local onde, nos últimos três anos, eu tenho passado a maior parte do meu tempo, ou seja, na faculdade.

E é isto que eu pretendo com este blógue: relatar minhas angústias e frustrações, mas também meus êxitos e acertos relacionados à minha atividade como bolsista de iniciação científica e como estudante de Jornalismo na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, também conhecida como Fabico. Este será, também, um espaço para a exposição e discussão de idéias relativas à minha atividade de pesquisa e os temas que pretendo abordar em trabalhos da faculdade e na monografia (que estou louco para começar a fazer).

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