Para além da Academia

October 8, 2007

Entre o morro, as tropas e a elite

Filed under: red. III - cristianomuniz @ 5:30 pm

 

A repercussão de Tropa de Elite e as discussões daí resultantes

No discurso oficial sobre o combate ao uso de drogas ilícitas, de uns anos para cá, passou a se responsabilizar também o consumidor desse tipo de substância, que supostamente ajudaria a financiar o crime organizado que coordena a venda de entorpecentes em nossas cidades. Recentemente, o tema voltou à pauta de discussões, como é possível constatar na repercussão do filme Tropa de Elite, de José Padilha, junto à sociedade e à imprensa; e, de modo mais específico, no embate protagonizado por Arnaldo Bloch e Vagner Moura em artigos publicados no site do jornal O Globo. A película, que estreou há pouco nos cinemas brasileiros, retrata a guerra travada pela polícia contra os traficantes em uma favela do Rio de Janeiro, sob o ponto de vista de um agente do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar carioca.

Bloch, em seu artigo, questiona as reações da platéia ao filme em questão, ressaltando que a identificação do público com o capitão Nascimento – protagonista da produção, interpretado por Moura – é um reflexo do espírito reacionário (ou “fascista”, nas palavras do articulista) de boa parte de nossa classe média-alta urbana. Na sessão de estréia de Tropa de Elite, espectadores aplaudiram o capitão que adota métodos pouco humanos para combater os narcotraficantes e entoaram em coro a alcunha do BOPE (“caveira”), como se saudassem o batalhão e suas ações de repressão ao crime organizado. Bloch salienta a identificação da platéia com o personagem do capitão Nascimento que, nas palavras do autor, foi aclamado como uma espécie de “libertador de todos os medos e de todas as culpas”, situando-se, então, acima do bem e do mal, como o “vingador natural de todos os corações desprotegidos”.

Moura, por sua vez, responde em outro artigo às críticas apresentadas por Bloch; o ator baiano deixa claro em seu texto que não concorda com as atitudes de seu personagem no filme, demonstrando preocupação com o fato de a platéia ter atribuído um caráter quase “heróico” ao capitão Nascimento: para Moura, filmes como Tropa de Elite podem servir para estimular o debate sobre questões cruciais relacionadas ao tráfico e ao consumo de drogas em nossa sociedade; o que, na visão do ator, é totalmente contrário ao enfoque “fascista” sugerido por Bloch.

Nesse sentido, volta à pauta de discussões a questão da legalização do uso de entorpecentes. Moura lembra que tentar inibir o consumo de drogas é “contraproducente”, pois o consumidor seria o elo mais fraco do sistema que sustenta o tráfico de substâncias ilícitas; o ator também menciona o exemplo da Holanda que, por sugestão da polícia, resolveu tolerar o uso de maconha em determinados locais públicos. Contudo, o que o protagonista de Tropa de Elite não explica é como o caso holandês, sempre citado em qualquer discussão sobre o tema da legalização das drogas, poderia dar certo no Brasil; Moura desconsidera, portanto, as especificidades de cada país, as quais determinariam o êxito – ou fracasso, o que me parece mais provável – de semelhante iniciativa, caso fosse aplicada em nosso país.

Outra questão trazida ao debate é a da responsabilidade do usuário de drogas como financiador da indústria do narcotráfico. Moura comenta que conhece “muita gente que deixou de fumar maconha para não alimentar o tráfico”; eu, particularmente, conheço também muitas pessoas que têm por hábito “queimar um”, e nenhuma delas demonstra qualquer tipo de preocupação ou “consciência social” nesse sentido. E isso, certamente, não faz dessa gente um bando de alienados da “abobalhada burguesia” a qual Bloch se refere em seu artigo; neste ponto, Moura tem razão: o consumidor de drogas é mesmo o “elo mais fraco” da abominável corrente que une traficantes, policiais honestos e corruptos, autoridades da segurança pública, jovens e adolescentes do morro e do asfalto.

É certamente mais cômodo responsabilizar os usuários, ou ainda a tal “juventude burguesa alienada” de que fala Bloch, que povoa nossas universidades públicas e privadas, do que pensar o uso e abuso de entorpecentes como uma questão de saúde pública. Assim, o discurso reacionário de certos políticos e autoridades policiais – vide a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius e seu secretário de segurança, José Mallmann, e sua proposta infame de lei seca – encontra mais um bode expiatório convincente, encobrindo sua parcela de responsabilidade pela situação caótica da segurança pública em nossas metrópoles. Contraproducente é, a meu ver, procurar culpados para um problema que diz respeito a toda a sociedade e que influencia diretamente, queiramos ou não, nossos cotidianos e, porque não dizer, nossas vidas de modo decisivo.

 

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